
Se nos primeiros meses de vida a rotina do Bebé requer bastante atenção, e responsabilidade por parte dos Pais, sobretudo no que diz respeito aos cuidados alimentares, a verdade é que essa azáfama, dificuldades e dúvidas inerentes, não diminuem com o passar do tempo nem com a experiência que entretanto se vai adquirindo.
Na verdade, à medida que a criança se desenvolve, e aprofunda as suas capacidades psicomotoras, assim também se delinea a sua personalidade e compreende também o papel que possui no seio familiar e de que modo pode interagir, tirando para si o melhor benefício, com todas as pessoas importantes na sua vida.
Por volta dos 3 anos, a criança já deverá ter compreendido diversos sabores dos alimentos e distinguido aqueles que mais aprecia. Se cruzarmos esta ideia com a sua fácil capacidade de comunicação, com a sua autonomia própria em alimentar-se e com o poder afectivo com que lida com os Pais, e Avós, então deparamo-nos com um problema: o bebé, agora mais crescido, e já uma esperta criança, poderá tornar-se no diabrete mais terrível das redondezas...
Parece-me pois pertinente deixar hoje às Famílias, uma resenha dos principais cuidados que devem seguir para o padrão alimentar instituído em casa para que se proteja, acima de tudo, o bem-estar familiar e a harmonia do lar. Tome nota:
- Qualidade no acto de cozinhar: tenha a preocupação de ser dinâmica, prática e muito rápida nas refeições que confeciona em casa, procurando encontrar algum prazer nesta actividade e procurando diversificar tanto quanto possível a oferta alimentar. Deste modo, não só permite uma maior variedade na dieta infantil como não permite o enraizamento de hábitos menos correctos e que quase sempre comprometem uma alimentação equilibrada;
- Dê asas à imaginação! Quando a criança nega um tipo de alimento, não desespere mas faça-lhe a vontade, assegurando contudo que a refeição não fica empobrecida. Complemente pois com outro alimento. Por ex.. se numa refeição a criança não gosta de batata cozida, garanta que come o peixe (ou carne) e legumes que goste. Mas, numa das próximas refeições seguintes, ofereça-lhe puré de batata para que o sabor desprezado não se implemente. Se mesmo assim rejeitar, experimente fazer, por exemplo, bolinhas de puré passadas com pão ralado e fritas. Curiosamente as crianças não são adeptas do puré, mas se aliar um molho enriquecido de almondegas, por exemplo, a ideia é destronada...Haja imaginação;
- Nada de desesperos! A partir dos 3 anos, a criança compreende que pode manipular, em seu benefício, as pessoas que zelam por si, fazendo birras, arrastando a refeição, sujar tudo, etc. Não se enerve e tente nunca demonstrar este efeito psicológico de que está a ser alvo pois é exactamente isso que o diabrete procura e este efeito ação-resultado irá ficar ainda mais forte. Relativize, informando a criança que esse comportamento a entristece e que terá que sair da beira dela se a atitude permanecer. Por outro lado, utilize o reforço positivo. Saúde, brinde, conte ao telefone quando a criança faz progressos positivos, deixando todos mais satisfeitos e relaxados;
- Apostar no convívio familiar: é fundamental que, nestas idades, em que o seu comportamento pode assumir precocemente desvios psicológicos, e do foro alimentar, que dê atenção equilibrada à criança. A ideia de comerem juntos à mesa, pode à primeira vista, ser um hábito esquecido mas representa, sobretudo, aprender a respeitar a alimentação e a compreender que, além de um acto vital, é também uma forma de prazer e de encontro entre as pessoas que mais apreciamos;
- Evite a rigidez: se é preciso instituir regras, também é preciso destituí-las um dia, o "dia sem regras". Afinal, somos todos humanos e precisamos de folga nas nossas rotinas para podermos efetivamente valorizá-las. Crie regras de higiene, comportamento e qualidade alimentar em todas as refeições para que a rotina, que tanto apreciam e pela qual se regem, predomine. Esta será a referência deles, sempre! Importante pois ser consistente no dia-a-dia. Mas deixe-os consumir, uma vez por outra, dos restantes alimentos menos saudáveis, focando porque não lhes dá mais vezes: fazem sede, fome volta depressa, crescem borbulhas, pode aparecer diarreia, etc. Tire partido dos "sintomas" que surgem nos momentos seguintes e explique-lhes isso. Faça o mesmo com os alimentos saudáveis, como o leite e o pão;
- Alimentos proibidos sob vigilância: nunca ofereça um alimento proibido à criança em troca de uma refeição, ou alimento saudável. Negoceie antes. Sem chantagem, do género, "se comeres isto podes comer aquilo". Esta associação direta não deve ser percebida pois enraiza o comportamento que leva à birra. Faça antes: "só quando comeres tudo é que a tua barriguinha poderá receber o que desejas, para que não te faça mal. percebes?"
- O exemplo familiar: é fundamental o seguimento desta regra. Não me canso de a citar. Com que moral ensinamos os nossos filhos a comer fruta, se nós próprios não lhe atribuímos o devido valor e, inconscientemente por causa disso, não apostamos na sua qualidade, variedade, e frequência da oferta? Ou, no caso do pequeno-almoço, simplesmente corremos de um lado para o outro, com pressa para sair e esperamos que o diabrete coma tudo, sozinho (!) e sob pressão? Quando nós até preferimos abdicar dessa importante refeição, principalmente, porque não queremos comer...sob pressão?? Pense nisso.
É pois uma boa altura para, todos, reformularmos o padrão alimentar que estamos a seguir em casa, e que tipo de conduta poderemos, inconscientemente, estar a induzir também. Aos Pais com crianças mais jovens, fica também aqui um conselho: quanto mais cedo a criança for ensinada a valorizar a alimentação, sob todos os aspectos, mais cedo e mais fácil será para convencer as crianças e fazer delas adultos saudáveis e responsáveis. Pensemos nisso!
E como costumo dizer…Espero ter ajudado :-)
Com vista à promoção de uma Alimentação Saudável na Famílias, este artigo tem autorização da autora para ser publicado em sites de Escolas, Creches e Infantários. Apenas se solicita que não altere o seu conteúdo e a sua origem/autoria seja preservada.
Os seus comentários são sempre benvindos. Se tem um diabrete lá em casa, conte-nos o seu caso. O que está a correr mal? Onde acha que pode estar a falhar?
Dra. Solange BurriConsultora em Alimentação em Escolas e Infantários(Mestre na área da Nutrição Infantil)
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