Tem dúvidas de como deve organizar a alimentação em casa?
Este é um espaço virtual focado na qualidade alimentar que a família deve praticar em casa, nas compras, na creche, na escola, no trabalho.
Aqui encontrará excelentes conselhos de Nutrição e também de Segurança Alimentar a seguir pelo consumidor para si e sobretudo para as suas crianças!

terça-feira, 23 de Março de 2010

As creches estão preparadas para a amamentação?

«Se fosse disponibilizada uma nova vacina que pudesse prevenir amorte de um milhão de crianças ou mais por ano e que, além disso, fosse barata, segura, de administração oral e não exigisse uma cadeia de frio, esta tornar-se-ia numa prioridade imediata para a saúde pública. A amamentação pode fazer tudo isso e mais ainda, mas precisa da sua própria “cadeia quente” de apoios – ou seja, cuidados profissionalizados que permitam às mães ganhar confiança e lhes mostrem o que fazer e as protejam das más práticas.» Lancet 1994;344:1239-41

Se atentarmos num dos objectivos específicos da creche: “colaborar estreitamente com a família numa partilha de cuidados e responsabilidades em todo o processo evolutivo das crianças” nele encontramos a base da referida “cadeia quente” de apoios a que se refere a citação anterior. No entanto, para que este objectivo seja atingido na sua plenitude há que, por um lado, sensibilizar e formar os profissionais que trabalham dentro e fora das nossas creches para a questão da amamentação e, por outro lado, desmistificar a ideia entre as mamãs de que a entrada do bebé na creche implica o fim da amamentação.

Como Educadora à quatro anos na resposta social da creche tenho vindo a efectuar o acompanhamento a mães e bebés num momento gerador de grande ansiedade e, até de alguma angústia, que é o de confiar o seu pequeno filhote a terceiros numa fase ainda muito precoce onde os cuidados maternos parecem insubstituíveis. De facto, nesta altura a sensação de abandono que a mamã experiencia aliada à ideia da quebra na relação de vinculação mãe-bebé persegue e atormenta muitas progenitoras.

Ora, do meu ponto de vista, acredito, que o deixar de amamentar pode acentuar ainda mais estes sentimentos e muitas são as mamãs que quando chegam junto de mim para um primeiro contacto – entrevista de diagnóstico – vêm já com um esquema alimentar demasiado rígido onde não existe lugar para a amamentação. Aqui os principais “erros” que encontro dizem respeito à introdução da alimentação à base de sólidos numa fase ainda muito precoce (3-4 meses), a introdução do leite adaptado em detrimento do leite materno e a existência de horários fixos para as refeições dos bebés, tudo aliado a uma ideia pré-concebida de que, por um lado, quando o bebé for para a creche já deverá ter introduzido a sopa no seu esquema alimentar e, por outro, a progenitora não poderá fazer parte das rotinas diárias do seu bebé na creche.

Importa pois desmistificar estas ideias que quase sempre as mamãs criam:

- A entrada da criança na creche é um processo que não diz respeito só à criança… mais do que isso envolve a criança e o seu referencial afectivo – na grande maioria dos casos a Mãe. Neste sentido, mais do que aconselhável, trata-se quase de uma obrigatoriedade a presença desta na creche, sobretudo, nos primeiros meses … transmitindo assim segurança à criança, potenciando a sua e, também, a dos profissionais. Para se ter uma ideia da importância da presença materna existem creches em Portugal onde a criança não é admitida sem, previamente, ser acordado um “regime” de acompanhamento à criança/participação no processo de separação/adaptação à creche. No entanto, o que acontece, na maioria dos casos, é que as mamãs esperam pelo final da sua licença de maternidade para dar início à frequência do seu bebé na creche não podendo, a esta altura, fazer um acompanhamento mais próximo devido às exigências laborais. O aconselhável seria que se reservasse parte do tempo de licença para fazer uma adaptação faseada e progressiva com a mãe sempre presente e totalmente disponível para o seu bebé.

- A importância de fazer com que a mãe continue a amamentar o seu bebé… a entrada na creche não significa o fim da alimentação com o leite materno, pelo contrário, além de ser óptimo em termos nutricionais, e imunológicos, é-o também em termos de segurança afectiva, permitindo reforçar a relação de confiança entre mãe, bebé e profissionais. De salientar, que “(…) [a] mãe que amamenta o filho tem direito a dispensa de trabalho para o efeito, durante o tempo que durar a amamentação (…)” sendo que essa “ (…) dispensa diária para amamentação ou aleitação é gozada em dois períodos distintos, com a duração máxima de uma hora cada, salvo se outro regime for acordado com o empregador” (Lei nº 7/2009 de 12 de Fevereiro, art. 47 nºs 1 e 3).

Desta forma, a mãe poderá conciliar este período com o tempo de permanência da criança na creche. Aqui importa referir o papel do Educador, que deve estar sensibilizado para estas questões de forma a incentivar todo este processo, bem como, os profissionais de saúde que muitas vezes tentando minimizar a ansiedade criada na mãe acabam por aconselhar a introdução precoce de sopas/papas na alimentação do bebé. É importante que, cada vez mais, exista um trabalho de cooperação e complementaridade entre a área da saúde e a área da educação. Acredito que se a primeira for conhecedora das dinâmicas, rotinas e modos de fazer de uma creche a criança e a mãe saem, sem dúvida, beneficiadas neste processo.

Mas, e se a mãe não se pode deslocar à creche para amamentar?
Poderá considerar o facto de extrair o leite materno manualmente ou através de bomba devendo a Instituição/Profissionais estar preparados para o conservar e manusear correctamente.
Concretizo que muitas creches não estão ainda preparadas para lidar correctamente com esta questão da amamentação mas acredito, também, que nos cabe a nós – profissionais a trabalhar na resposta social creche – fazer com que a amamentação seja uma realidade e não algo que se evita porque não se sabe muito bem como lidar com a situação, como proceder, como ter as mamãs nas nossas salas… o Educador que trabalha em creche, mais do que em qualquer outra resposta social, deve ter uma abertura total para o trabalho complementar com as famílias procurando estar atento a toda uma série de questões que não somente as de carácter pedagógico.

Para as mamãs deixo um pequeno conselho: equacionem sempre a continuidade da amamentação mesmo com a entrada do bebé na creche… A Organização Mundial de Saúde recomenda que as crianças devem fazer o aleitamento materno exclusivo até aos seis meses de idade e que a partir dessa idade todas as crianças devem receber a alimentação complementar. O que não significa anular a amamentação em detrimento da diversificação alimentar…



Educadora
Sónia Carvalho

Equipa BabySol®


Leia também:

Que cuidados alimentares na Creche?

Os Pais podem melhorar os serviços prestados nas Creches?

Brinquedos & Brincadeiras à mesa: sim ou não?

E você? Que relato tem para contar sobre a adaptação do seu Bebé, e a sua, à Creche? Deixe o seu comentário...

Siga BabySOL® nas Redes Sociais:



Email

Receba as actualizações do Portal BabySOL®:

Introduza o seu email:


6 comentários:

  1. Bem, eu devo ter tido muita sorte na creche que escolhi! A minha filha entrou na creche com 4,5 meses e foi alimentada com leite materno até aos 6 meses e pouco. Eu levava o leite todos os dias e ela bebia quando pedia (não há horas certas para dar leite no berçário). Quando começou a comer as sopinhas, ainda demorou um pouco até comer só sopa e lá ia o leite para complementar. Continuou a beber do meu leite ao lanche e depois passou a papas feitas com o meu leite. Nunca me levantaram problemas. Só recentemente é que ela passou a lanchar como os outros meninos, iogurte com fruta alternado com papa.
    Acho que falando com a creche se consegue chegar a um acordo satisfatório. Afinal nós pagamos por um serviço que deverá ser de qualidade, certo?

    ResponderEliminar
  2. Estive a ler atentamente este post sobre a amamentação e a creche e venho relatar a minha história. Tenho um menino a 2 dias de fazer 22 meses que ainda amamento :)
    Ele entrou para a creche aos 5 meses e meio. Cerca dos 4 meses e meio comecei a fazer stock de leite, que tirava com bomba electrica e fui congelando em saquinhos individuais. Quando ele entrou para a creche no periodo que lá ficava eu deixava leitinho para as várias refeições. Só introduzi a outra alimentação aos 6 meses e comecei logo com sopa, não dei papa.
    Correu tudo muito bem e a creche foi sempre muito receptiva e encorajadora da minha atitude. Até pouco mais de 1 ano de idade eu tirei sempre leite e deixava lá.
    Actualmente ele ainda mama, mas resume-se à noite e manhã, mas no lanche da creche como não tenho stock de leite materno, mando leite de arroz :) Temo-nos dado muito bem. Força mamãs, dar leite materno é dar vida :) :) :) bjocas para todas. Carla Nunes

    ResponderEliminar
  3. A minha bebé entrou na creche (pública) aos 6 meses e meio e continuou a mamar mais 7 meses. Tinha acabado de introduzir a sopa e a papa e amamentava apenas de manhã e à noite. Nessa altura, a minha bebé nunca pedia mama, mas ainda assim continuei a oferecer e ela aceitava nestes horários mais "sonolentos" (ao acordar e ao deitar). Com 13 meses e meio recusou completamente a mama.

    Tentei nas 2 semanas anteriores à entrada na creche fazer a papa com leite materno, mas só com muito esforço consegui tirar leite suficiente para esse fim. Nunca consegui ter um stock em condições, apesar de me ter esforçado por isso. Ao fim dessas 2 semanas desisti.

    Penso que teria sido difícil amamentar na escola, a não ser que me deslocasse lá, pois mesmo para que a papa da minha bebé fosse diferente da standard (pois preferi que fosse papa não lactea feita com leite hipo-alergénico), tive que fazer um pedido especial e alguns meses depois descobri que já estavam a dar a papa standard...

    Deslocando-me à escola, não me parece que existisse um espaço adequado para a amamentação, mas penso que falando com os responsáveis da creche teria sido possível arranjar uma solução.

    ResponderEliminar
  4. Parabens pelo artigo...está muito interessante. No meu caso sinto-me uma priveligiada, pois sou educadora e a minha bebé está na mesma instituição , por isso desloco-me à sala na hora da maminha. Ás vezes ainda está a dormir e volto mais tarde ou chamam-me. Não tive direito a redução de horário, por a ter na mesma instituição, mas posso ir à sala amamentar. Apesar de não usufruir das tais 2 horas... Penso que as creches no geral não estão preparadas fisicamente, pois não têm um espaço próprio para amamentação. Muitas vezes ficamos expostas a quem passa e ao barulho em redor, num momento que devia ser intimo e calmo.

    ResponderEliminar
  5. É a primeira vez que leio e vejo este artigo e fez-me chorar. Vou retirar a minha filha da creche porque não considero que esteja a ser bem cuidada. Tomei a decisão hoje ao fim de 1 mes e meio, 1 mes e tres semanas. Entre outras coisas, por causa do aleitamento. Introduziram a fruta sem me perguntar e eu pedia para não lhe darem o leite para assim que chegasse poder dar de mamar, mas bastava chegar atrasada 5 a 10 minutos que já lhe tinham dado o biberão. Do meu leite é certo, porque deixava sempre dois sacos de 150 ml de leite congelado para o caso de não querer a sopa. A minha filha não é uma criança fácil de adormecer e mesmo depois de ter pedido que a tentassem adormecer de tarde não o fazem. Temos tido umas noites fantásticas cá em casa...Ontem tinha uma conjuntivite no olho e nem a enfermeira chamaram ou me ligaram.Estou desolada com este tipo de atendimento.

    ResponderEliminar
  6. Gostei muito de ler este seu artigo. Penso que uma ideia muito interessante, à semelhança do que já existe no Brasil,seria haver uma certificação das creches como amigas da amamentação, implicando isso que disponibilizassem condições para mãe e bebés/crianças manterem a amamentação, houvesse formação do pessoal, etc.
    Helena Cepeda

    ResponderEliminar

Comente este Blog.
A sua participação irá enriquecê-lo e promover novos conteúdos. Obrigada e...fique por perto!